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NOVO PISO: Jornalistas e patrões firmam acordo coletivo de 2017

Da assessoria Após seis rodadas de negociação, mediadas pela Superintendência Regional do Trabalho e Emprego de Mato Grosso, o Sindic...

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9 de mai. de 2012

Escolhas



Por Márcia Raquel*



Há 15 anos eu chegava em Mato Grosso. Algumas malas, umas duas ou três caixas grandes, o peito apertado e o coração aflito me acompanhavam.  Na rodoviária de Várzea Grande (que por sinal continua igualzinha) meu falecido pai me esperava, acho que ele nem acreditava no que estava acontecendo. Meu irmão caçula, que tanto insistira para eu antecipar minha viagem, também estava lá. Era o começo de uma nova vida.

Uma vida que eu nem imaginava como seria. Às vezes, em épocas de mudança, a gente fantasia algumas coisas do tipo: como seria viver em uma casa nova, iniciar um trabalho novo, poder comprar o carro preferido sem se preocupar com o valor... Mas daquela vez eu nem conseguia pensar no que me esperava. Talvez fosse reflexo da reação dos meus amigos ao saber da minha mudança: “Cuiabá?! Nossa, o que você vai fazer lá?” Diante de tal espanto eu só tinha uma resposta: “Ué, vou estudar. Passei na Federal e não posso perder essa chance né”.

Os primeiros meses foram bem difíceis. Não é fácil para uma paranaense recém-chegada andar de ônibus em Cuiabá, ainda mais em tempos de Garça Branca e companhia. Mas, como bem cantou Renato Russo: “Sou um animal sentimental me apego facilmente ao que desperta o meu desejo...”.  Lembro que a minha primeira providência foi tirar carteira de habilitação. Eu não tinha carro, mas meu pai era taxista e quem sabe, bem conversadinho, ele não me liberava o carro em alguns momentos de folga né? Mas isso era também uma forma de ocupar a cabeça, pois as aulas só começariam em agosto.  

Lembro que todo final de semana passava um bom tempo no orelhão matando a saudade da família que deixei no Paraná e contando as mais novas experiências.  É bem verdade que voltava pra casa chorando de saudades, mas, eu tinha escolhido esse caminho, e acreditava nele. Já a comunicação com os amigos era via Correios mesmo. Não podia me dar ao luxo de gastar tanto dinheiro com telefone.  Mas a moção ao receber uma carta era tão grande que eu ficava horas com ela na mão, lendo e relendo para ter a certeza que não tinha pulado nenhuma frase. Tempo bom!

E agosto chegou. Que maravilha, que emoção! Eu nem acreditava que ia estudar numa Universidade Federal! Um turbilhão de coisas acontecendo, tudo ao mesmo tempo. Quanta gente nova, quanta diversidade, assuntos que eu nunca tinha se quer pensado antes. Meu Deus! Que cabeça pequena era a minha! Foi em meio a esse turbilhão que eu arrumei o meu primeiro trabalho em Cuiabá. Maravilha! Para quem trabalhou desde os 13 anos, pedir dinheiro para o pai, que já não tinha muito, não era nada fácil também.

Aí começou uma das melhores épocas da minha vida em Cuiabá. Conhecer gente de todo o Brasil foi a primeira coisa que me encantou na UFMT.  Fiz muitos amigos. Amigos de verdade, com os quais convivo até hoje e são também minha família aqui. Na faculdade aprendi que a gente deve respeitar a cultura de todos os povos. Na convivência com esses amigos entendi como respeitar e aprender com essa diversidade.

A vida acadêmica, a militância, as primeiras experiências no jornalismo, as viagens..., foram muitos momentos mágicos. Transformadores. A partir dessa vivência, descobri o que eu queria para minha vida. Coisa que eu estava longe de saber quando escolhi cursar jornalismo. A ânsia de entrar no mercado de trabalho me levou para Nova Mutum. Lá fiquei por um ano. Um período riquíssimo em experiência profissional e conhecimento dessa imensidão que se chama Mato Grosso.

Mas sabia que lá não era o meu lugar. Queria mais. Sempre quis.  Voltei pra Cuiabá e com a ajuda dos amigos (sempre eles) consegui meu primeiro emprego na chamada grande imprensa. Fui parar logo na editoria de política. E lá fiquei.  E veja como as coisas são, somente agora, depois de quase 11 anos de formada, estou fazendo o que pensava fazer quando saí da faculdade: escrever sobre cultura.  Mas, aprendi que não tem como fugir da Política. Ela está onipresente em todas as editorias, assim como em toda a nossa vida.

O tempo passou, perdi meu pai, meu irmão (companheiro de todas as horas) voltou pro Sul. E eu fiquei. Confesso que hoje sei muito mais sobre Mato Grosso do que sobre o meu Paraná.  Sou cuiabana de coração e tenho uma filha nascida em terras cuiabanas. Aqui vivi momentos mágicos e gratificantes. Tenho as melhores lembranças do meu pai. Tenho amigos/irmãos. Tenho um carinho imenso por esse povo, muitas vezes tão maltratado por políticos e administradores descompromissados.  

Não posso negar que esse calor me maltrata. E que muitas vezes tenho vontade de voltar. É verdade. Mas, depois de 15 anos, se alguém ainda tiver coragem de me perguntar o que eu vim fazer em Cuiabá, a resposta está na ponta da língua: Eu vim viver em Cuiabá!

*Marcia Raquel é Jornalista em Cuiabá. 

17 de abr. de 2012

Escrevo, logo tenho que receber!


*Por Josiane Dalmagro


 Imagine o que é o trabalhador ter que se preocupar se vai ou não receber pelo trabalho que ele já realizou, no final de cada mês, todos os meses, durante mais de um ano.

Bom, se para alguns isso parece distante e impensável, creia, para muitos jornalistas de Cuiabá, é uma realidade mais que próxima. Uma realidade praticada por alguns, grandes, veículos de comunicação, como o Jornal Folha do Estado e Diário de Cuiabá.

Agora, pense aqui comigo, como se não bastasse toda a pressão de um jornal diário, o fechamentos de pautas, o furo de notícia, a manchete, os especiais de final de semana, os plantões, as horas extras (não recebidas, é claro), o jornalista tem ainda que pensar de que maneira ele vai pagar as contas naquele mês, qual será o malabarismo necessário, quais contas serão priorizadas e como pagá-las.

Passa do nível da humilhação e desrespeito para, quase, a linha do trabalho análogo escravo, pois, até onde eu entendo, trabalhar e não receber é isso, não é?

Pois bem, na tentativa de restabelecer o mínimo necessário para a sobrevivência desses trabalhadores, o Sindicato dos Jornalistas de Mato Grosso, junto com os repórteres da Folha do Estado, iniciaram, ainda em novembro de 2011, a primeira greve, depois de quase três meses de salários atrasados.

A medida funcionou naquele momento, pois a referida empresa se assustou com a atitude dos trabalhadores que, há muito estavam “inertes” aquela situação, aceitando calados o tipo de postura aplicada pela empresa.

Logo após o início da greve, dois salários apareceram nas contas de cada um dos funcionários, sendo considerado um verdadeiro milagre da multiplicação.

Na ocasião muitos colegas de profissão se solidarizaram e publicaram em seus veículos o corrido, dando força e braços para a greve, o que também ajudou bastante, pois, mais do que a preocupação com os leitores, ao meu ver, a empresa se preocupa (ou preocupava) com a imagem do jornal.

Promessas de mudança foram feitas e todos ficaram motivados para continuar realizando seu trabalho, mas o caso é que, como esperado por muitos, foram promessas vãs, calcadas no único interesse de resolver a greve e colocar a força de trabalho para funcionar.

No começo desse ano a situação já estava precária novamente e, mais uma vez, os repórteres decidiram, parar os trabalhos. Assim como na primeira greve, não houve adesão dos editores que, justificaram a não participação por conta de algo que eles chamam de “cargo de confiança”. Eu nunca entendi bem, afinal, até onde eu sei, esse tipo de cargo não cabe para empresas privadas, certo?

Essa sim, posso dizer, foi uma greve histórica. Todos os repórteres ficaram parados durante 14 dias. Poxa vida, quase metade de mês! E sabe do que mais, o jornal saiu todos os dias. Reduzido, cheio de release, feito nas cochas (com todo respeito aos editores que se mataram nesse período para por o jornal na rua), mas saiu.

Resultado: a greve, mesmo que longa, perdeu a força e os empresários responsáveis pelo jornal passaram a ignorar a situação. Os veículos não deram muita atenção e não publicaram quase nada e quando eles acharam por bem, pagaram e todo mundo voltou.

Muitos repórteres pediram demissão e, ainda assim, a situação voltou à esfera de greve esse mês.

A diferença é que dessa vez, a promessa era de que todos parassem, inclusive os editores e, eles o fizeram. O prazo seria a última quinta-feira (12), pois, mais uma vez, os salários estavam – e continuam - atrasados há dois meses.

Vergonha. Essa é a palavra que me vem primeiro quando penso nisso tudo. Depois sinto tristeza e desilusão, seguido de pena de quem ainda não teve coragem ou chance de sair do referido jornal, diante de tudo isso.

*Josiane Dalmagro é jornalista em Cuiabá.

16 de abr. de 2012

Afinal, para que serve sindicato?

Por Jackelyne Pontes*
Sindicato é uma associação de trabalhadores que lutam para defender os interesses e direitos de seus pares, onde os trabalhadores são livres para se juntarem ao grupo de filiados. A Constituição Federal de 1988 reconhece o direito à sindicalização, à greve, à luta pela dignidade, e em seu artigo oitavo, inciso terceiro reza que “ao sindicato cabe a defesa dos direitos e interesses coletivos ou individuais da categoria, inclusive em questões judiciais ou administrativas".
Cabe ao sindicato negociar coletivamente, intervir legalmente em ações judiciais e participar da elaboração da legislação laboral, tratando dos problemas coletivos que surgem decorrentes do exercício da profissão e se preocupa também com a condição social do trabalhador enquanto cidadão. Por exemplo: se o local de trabalho não tem condições adequadas, faltam equipamentos ou a manutenção destes é ineficiente, cabe ao sindicato informar a gestão sobre o ocorrido, e esta tomar as devidas providencias para que o problema seja solucionado. É comum confundirmos ações sindicais e ações de gestão.
As ações do sindicato de classe contribuem não apenas para a defesa do próprio interesse do seu filiado como para o desenvolvimento da sociedade. Muitos trabalhadores pensam em sindicalizar-se quando estão em situação de problemas concretos, porém nestes casos pode ser tarde demais. Ações isoladas formam idéias vagas, distorcidas e equivocadas diante dos problemas da classe e as posições a serem tomadas por este profissional, acaba por prejudica-lo e a toda a sua categoria.
Sindicalizar-se significa fortalecer-se com vista à defesa de seus interesses, sendo estes individuais e coletivos, levando em conta que o sindicato lhes faz chegar informações preciosas, que o trabalhador nunca terá acesso se estiver caminhando individualmente. É um investimento individual e coletivo. Cabe ao sindicato, por exemplo, negociar acordos coletivos, auxiliar juridicamente o seu sindicalizado em homologações das recisões contratuais, receber e encaminhar denuncias trabalhistas, como em casos de assédio moral, perseguição, atividade ilegal da profissão, precariedade de vínculo empregatício, negociar com o gestor em casos de demandas relativas a movimentos grevistas, jornada de trabalho, proteção aos diretos adquiridos, enfim, o sindicato representa o seu filiado.
Reparemos que mesmo em situações em que achamos que o sindicato não está fazendo o seu papel, inconscientemente sabemos que ele está atuante, pois é mais fácil tomarmos uma postura anti-sindical onde criticamos o nosso sindicato bradando aos quatro ventos que “ele não faz nada” ou mesmo que “ele não presta”, do que nos envolvermos com a causa, tomarmos pé dos problemas, participarmos das assembléias e contribuirmos para a evolução da classe. Envolver-se com a causa demanda tempo, comprometimento, estudo, e por vezes deixarmos de lado nossos projetos pessoais para colaborar com o coletivo.
Metaforicamente o sindicato é uma faísca, que transforma-se em chamas, é aquele fogo subterrâneo, persistente, que um ou outro isoladamente tenta apagar em vão. Nunca é demais ressaltar que uma categoria com representatividade é uma categoria unida, faça a sua parte: sindicaliza-se!
 *Jackelyne Pontes é cirurgiã-dentista, filiada ao Sinodonto-MT (Sindicato dos Odontologistas do Estado de Mato Grosso) e articulista do Blog do Romilson - jackelynepontes@gmail.com

7 de abr. de 2012

DIA DO JORNALISTA: Lugar de jornalista é na luta!

Neste sábado, 7 de abril, comemoramos o Dia do Jornalista. É um momento de comemoração e reflexão. Comemorar é sempre bom, principalmente se nos referimos à essência verdadeira da palavra: lembrar em conjunto. Refletir também é essencial para o crescimento.

Digo isso porque o Sindicato dos Jornalistas de Mato Grosso (Sindjor-MT) vem fazendo muitas ações nos últimos anos e isso não pode ser esquecido. Muito ainda precisa ser feito, é verdade, mas não podemos esquecer também que por 3 anos consecutivos conseguimos promover campanhas salariais e garantir aumento do piso, obtivemos terreno para nossa sede no Centro Político Administrativo, retomamos o prêmio estadual de jornalismo, as festas do bloco Imprensando o Bebum, festa junina, adotamos planejamentos anuais, aumentamos fiscalização das condições de trabalho nas empresas, criamos nosso site e a Comissão de Jornalistas pela Igualdade Racial (Cojira), enfim, trabalhamos muito!

Muito mais precisa ser feito, como já disse, mas, para isso, o Sindjor depende de cada jornalista, diagramador, repórter, editor, repórter fotográfico, repórter cinematográfico e todos aqueles que integram a categoria. É por isso que aproveitamos esse momento para fazer também uma reflexão: as condições de trabalho em Mato Grosso estão cada vez piores, salários mais baixos e isso precisa mudar. Mas só mudará quando a nossa categoria entender que é ela que tem que dar um basta!

A situação que temos no Estado reflete diretamente a mobilização da categoria. Um sindicato não pode ser apenas o representante legal de determinado segmento, pelo contrário, tem que agir organicamente com a classe. O Sindjor não resolve nada sozinho e é por isso que aproveitamos esse momento para agradecer a todos os que contribuem com o grupo, convidar para um engajamento cada vez maior e também aqueles que não participam ainda podem comparecer às reuniões ordinárias de segundas-feiras, às 19h.

Para finalizar, gostaria de dizer ainda que no próximo dia 7 de junho o Sindjor completará 40 anos. Isso é um bom momento para promovermos novas medidas e participarmos cada vez mais. Temos que buscar um jornalismo e um sindicato que mudem as coisas e não apenas mantenham o que já está por aí.

Téo Meneses
Presidente do Sindjor/MT - Gestão "O Sindicato é Você" (2012-2014)

8 de mar. de 2012

ARTIGO: Sonhei sonhos que não vivi

Por Maria Angela de Lima Dummel*

A comemoração ao Dia Internacional da Mulher puxa a fila das mais diferentes mensagens nas caixas de emails, na publicidade televisiva, redes sociais, dentre outros meios. Mensagens lindas, emocionantes, tocantes. Mas será mesmo que cada mulher que recebe estas homenagens sabe o porquê desta data? E o que ela realmente significa na vida de cada uma de nós? Algumas, nem fazem questão deste dia. O espaço é curto, mas vale a pena lembrar que esta não é mais uma data para o consumo ou para desencargo da consciência masculina. Esta é uma data para lembrar-se de mulheres que lutaram por liberdade em todos os sentidos. 

Vito Giannotti, em seu belíssimo artigo “O Dia da Mulher nasceu das mulheres socialistas” descreve a origem desta data e, principalmente, mostra como foi derrubado o mito de que a comemoração refere-se à história de uma greve, que teria acontecido em Nova Iorque, em 1857, na qual 129 operárias morreram depois de os patrões terem incendiado a fábrica ocupada. Esta greve nunca existiu. 

Na verdade, em 1910 na Dinamarca, na 2ª Conferência Internacional das Mulheres Socialistas organizada pelo Partido Socialista, foi proposta a realização anual do Dia Internacional da Mulher em busca de um ideal: “a luta por um mundo novo sem exploração e opressão do homem pelo homem e especificamente da mulher pelo homem”. A data ficou para ser definida em cada país. 

Ainda segundo Giannotti, em 1917, durante a Guerra Mundial, as mulheres socialistas da Rússia comemoraram sua data em 23 de fevereiro pelo calendário russo, que correspondia ao dia 08 de março no calendário ocidental. E foi nesse dia que explodiu uma greve das tecelãs e costureiras de Petrogrado. Contrariando as decisões do Partido, que acreditava não ser o momento ideal para uma greve, aquelas mulheres declararam greve e saíram às ruas, pedindo por pão e paz. Este foi o estopim para a Revolução Russa. E a partir daí, a data 8 de Março foi definida como a data das comemorações da luta das mulheres. 

De lá para cá, não só a verdadeira e linda história sobre a comemoração do Dia da Internacional da Mulher caiu no esquecimento, como também o seu real significado. Sabemos que ainda temos muito a lutar por espaço, respeito, direitos e oportunidades. E, principalmente, contra a violência física, psicológica e moral. Mas é bom saber também que caminhamos para isso. Em São Simão - Goiás, no dia 11 de fevereiro de 2009, aconteceu o julgamento do homem que torturou psicologicamente por sete anos e matou minha irmã a pancadas, em 2003. Foi condenado a 19 anos por homicídio triplamente qualificado, a maior pena que aquela pequena cidade já viu. Apesar da dor de pensar nos sonhos que ela, com apenas 31 anos, sonhou e não viveu, é um alento sentir que a justiça mostrou seu real comprometimento. Essa resposta precisa ecoar e repercutir em todas as famílias que sentem na carne a crueldade contra a mulher. Portanto, 08 de março é, antes de tudo, uma data para reflexão e ação.

*Profª Ms em Estudos Culturais/publicitária 

7 de mar. de 2012

ARTIGO: JORNALISMO EM MT - Atraso em salário pode motivar rescisão indireta, um direito do trabalhador

Diante da situação precária que muitos jornalistas têm enfrentado em empresas de comunicação de Mato Grosso, fomos procurados por alguns profissionais para dar orientações de como proceder. Uma das saídas é o pedido de rescisão indireta do contrato de trabalho. 

Essa modalidade é importante porque, se não houver justa causa, o trabalhador que pede demissão perde o aviso prévio e, se não cumprir esses dias trabalhando, a empresa pode pedir o pagamento em dinheiro. A pessoa também perde os 40% sobre o FGTS e não pode sacar o que tiver depositado, além de não ter direito ao seguro desemprego. 

A rescisão indireta está prevista no artigo 483 da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), que prevê textualmente que “o empregado poderá considerar rescindido o contrato e pleitear a devida indenização quando: a) forem exigidos serviços superiores às suas forças, defesos por lei, contrários aos bons costumes ou alheios ao contrato; b) for tratado pelo empregador ou por seus superiores hierárquicos com rigor excessivo; c) correr perigo manifesto de mal considerável; d) não cumprir o empregador as obrigações do contrato; e) praticar o empregador ou seus prepostos, contra ele ou pessoas de sua família, ato lesivo da honra e boa fama; f) o empregador ou seus prepostos ofenderem-no fisicamente, salvo em caso de legítima defesa, própria ou de outrem; g) o empregador reduzir o seu trabalho, sendo este por peça ou tarefa, de forma a afetar sensivelmente a importância dos salários. 

O empregado poderá ainda suspender a prestação dos serviços ou rescindir o contrato quando tiver de desempenhar obrigações legais, incompatíveis com a continuação do serviço. Também no caso de morte do empregador constituído em empresa individual, é facultado rescindir o contrato de trabalho. Nas hipóteses das letras "d" e "g", poderá o empregado pleitear a rescisão de seu contrato de trabalho e pagamento das respectivas indenizações, permanecendo ou não no serviço até final decisão do processo. 

Atenção especial merece a letra “D”. Isso porque atrasar o salário é um descumprimento da principal obrigação do contrato de trabalho e isso tem ocorrido com certa freqüência no Estado. Não existe limite de salários atrasados para justificar a rescisão indireta. Basta apenas 1 para caber essa medida. 

A vantagem da rescisão indireta é que o empregado recebe tudo que está previsto para a dispensa sem justa causa, ou seja, é o oposto do pedido de demissão tradicional. 

O pedido de rescisão indireta só é comum para os casos em que haja prova, motivo para tanto, e, as provas no caso de salários atrasados devem ser apresentadas pela empresa, ou seja, ela que tem que provar que pagou, portanto é relativamente fácil. 

Não é complicado alegar e pedir rescisão indireta, porém, apesar da Justiça do Trabalho ser a mais célere das justiças brasileiras, o empregado tem que ter uma certa paciência, pois, se não houver acordo na primeira audiência, o processo pode levar alguns meses. 

Marcos Dantas, assessor jurídico do Sindicato dos Jornalistas de Mato Grosso (Sindjor-MT).

16 de fev. de 2012

ARTIGO: Eu quero um outro jornalismo

Por Keka Werneck*


Eu quero um outro jornalismo, viu Enock Cavalcanti. Um que tenha disposição de se indispor, como você me cobra sempre. Um outro jornalismo, como o proposto pelo Ailton Segura, que dê espaço ao pobre do repórter, para que ele possa se expressar e não ser apenas uma máquina tosca, repetidora, maritaca. Quero um jornalismo pé no chão, de acordo com Gibran Lachowski, que seja a voz do povo sofrido. Um jornalismo que questione os ricos o tempo todo, porque, como sabemos eu e Marcela Brito, quanto mais um ganha outro perde na lei do capitalismo.

Quero um jornalismo que saia incansavelmente às ruas, como o de Alecy Alves, para alegria da professora Sônia Zaramella, que lamenta o repórter burocrático, assentadinho em frente ao computador, telefone à mão, celulares ao bolso, asséptico. Um jornalismo que sua a camisa, que volta sujo para a redação, porém realizado no âmago.

Quero um jornalismo talhado em casa e depois em sala de aula, que chegue para romper e não para manter.
Quero um jornalismo fênix, capaz de ressurgir das cinzas, na linha Najla Passos, que, após a fadiga existencial, se reencontra, se redescobre e entra no jogo novamente.

Um jornalismo vigoroso e confiável, como o texto de Márcia Raquel ou de Ana Cláudia Drummond.
Não me contento com outro jornalismo que não seja um tanto literário, cuidadoso com as palavras e vivenciado com mais calma, como busca Marcio Camilo.

Um jornalismo que traga sim exclusividades, notícias em primeira mão, como gosta Téo Meneses, mas que saiba ir um pouco mais a fundo e articule os fatos entre si, como ele mesmo faz tão bem.

Quero um jornalismo romântico, como eu defendo todo dia. Um jornalismo afetuoso, como um abraço de Liana Meneses. Um outro jornalismo, que não seja fétido, que cumpra seu papel, que esteja sempre nos bastidores, que revele e não esconda. Um jornalismo digno como Antônio Carlos Silva. Ou íntegro, como Antônio Lemos. Um jornalismo que seja capaz de tocar a pele da gente, como as palavras de Rose Domingues. E que conte uma história tão bem, como Martha Batista.

Não quero mais esse jornalismo que oprime e que faz meus colegas infelizes, decepcionados, cabisbaixos, se sentindo fracassados.

Quero um jornalismo novo, como o sopro de esperança que vem trazer Renê Dióz ou Thiago Foresti.

Um fotojornalismo que soque o estômago da gente fazendo lembrar que a vida é dura, como diz Mary Juruna. Um jornalismo grandioso como registra José Luiz Medeiros, iluminado, tecnicamente deslumbrante, perfeito, regional, que foque o caboclo. Que ponha o índio nu e na aldeia como Mário Vilela.

Um jornalismo que busca um viés curioso e de repente nos toma de assalto, como faz Rodrigo Vargas. Que escolhe bem as pautas, a dedo, que nem se cata conchinhas na praia, as mais bonitas, interessantes, rajadinhas ou rosadas.

Quero um jornalismo de confiança, como quando leio o Jonas da Silva e sei que ele conferiu os dados. Um jornalismo que seja ímpar em meio ao comum, como eu vejo Jonas Campos fazer, que independa um pouco do veículo, seja mais autoral. Um jornalismo na veia, como o que injeta até hoje Rubens Valente.

Quero um jornalismo que diz o que tem que ser dito, como fez Ricardo Boechat denunciando os absurdos no despejo em Pinheirinho. Um jornalismo que chora diante do que é triste, lamentável, de cortar o coração, insustentável, nojento, medonho, criminoso. Que fica puto, que sai do sério e depois volta ao equilíbrio. Humano é assim! Mas não um jornalismo histérico, ensimesmado, vaidoso, que usa os fatos para promoção pessoal.

Quero um jornalismo que tenha antepassados, como Jê Fernandes, Nelson Severino, Severo Crudo, Mino Carta, Munir Sodré, Alberto Dines...

Um jornalismo militante, que levanta bandeira, como o de tantos sindicalistas. Que proponha mudanças, como a democratização da mídia e outras pautas urgentes, como Bia Barbosa, Leonor Costa, Pedro Pomar, Sílvia Regina.

Quero um jornalismo que contrarie o patrão, que ignore a linha editorial, que desafie o sistema midiático, que cuspa no chão e seja bruto também.

Quero um jornalismo radical, como a língua de Luana Soutos. Indignado, como a Dafne Spolti. Moderno como Euzyane Teodoro e charmoso como Tchélo Figueiredo e Kleber Lima.

Quero um jornalismo contra a corrupção e pelos direitos humanos todos!

Um jornalismo do bem, como Anderson Pinho. Que saiba ver também o lado bom das coisas, como Márcia Andreola.

Um jornalismo parcial como faz Rodrigo Viana e por isso mesmo mais honesto com o expectador, leitor, receptor, como queiram.

Quero um jornalismo reclamão, como Laura Lucena, primeira mulher repórter de rua em Mato Grosso. Capaz de loucuras!

Quero um outro jornalismo, mais envelhecido do que jovem, mais maduro do que imaturo, mais profundo do que factual, mais literário que fugaz, mais político do que sonso, mais preto do que branco, mais popular que elitizado, mais verdadeiro que mascarado, mais urgente do que descartável.

Quaisquer que sejam os jornalismos, que estão por aí ou por vir, são feitos por todos nós, braçais da imprensa.

Keka Werneck é jornalista em Cuiabá e diretora de Mobilização do Sindjor-MT

30 de dez. de 2011

ARTIGO: Julianne é Caju. Caju é Julianne. Portanto sou Julianne Caju

A história do meu apelido Caju que virou nome profissional começa com a minha entrada na Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) no curso de Jornalismo em agosto de 1997. A cor acaju do meu cabelo, o suco ou doce de caju de minha mãe e a festa do caju são os três elementos motivadores do meu apelido.

Eu sempre gostei de pintar meus cabelos. Uma hora de vermelho, outra de marrom, e em outras fazia luzes ou mechas. Quando entrei na faculdade eles estavam de cor acaju.

A primeira coincidência com a cor dos cabelos é que às vezes eu pegava carona com um colega de classe, o Cleiton. Nessas idas dele à minha casa, quase sempre tinha suco ou doce de caju para ele se deliciar.

No período em que entrei na faculdade, no segundo semestre do ano, acontece uma grande festa intitulada “Festa do Caju” lá no bairro Morada da Serra (conhecido como CPA), onde eu morava. É uma festa
muito tradicional do bairro. Eu nunca fui. Mas meus colegas ‘juravam’ que eu era frequentadora assídua dessa festa.

Com os Cajus me rodando, um belo dia numa roda de amigos da faculdade, um soltou: “Seu cabelo tem a cor de caju. Lá no seu bairro tem a festa dos Cajus”. Outro reforçou: “E sempre na casa dela tem doce ou suco de caju”. E outro apelidou: “Então você é a nossa Caju!”.

Dizem que apelido pega quando você fica bravo, zangado, nervoso. Mas comigo foi diferente. Eu nunca me importei com o apelido Caju. E pegou!!! Primeiro foram os amigos da minha turma, depois o restante da sala, depois os veteranos dos outros semestres, depois os demais alunos do curso de Comunicação Social e dos outros cursos até chegar nos professores. É, até meus professores me chamavam de Caju.

Passei a ser apresentada como a Caju da Comunicação em toda a UFMT. Como sempre fui uma pessoa participante de atividades extraclasse, foi fácil o apelido se dissipar por tudo quanto é canto da UFMT: no
movimento estudantil, no grupo de pesquisa, na biblioteca, nas festinhas, nos congressos, nos eventos etc.

Quando escrevi meu primeiro texto jornalístico na aula de Redação I não pensei duas vezes em como iria assinar a matéria: Julianne Caju. Porque se eu colocasse Julianne de Oliveira Souza, nem a professora
iria saber que o texto era meu.



Em todos os meus trabalhos práticos da faculdade, de jornal, rádio, TV, site, assessoria, sempre assinei Julianne Caju. Sendo assim, quando fui para o mercado de trabalho, tive que manter. Julianne Caju,
então, virou nome profissional. E eu gosto do Julianne Caju, porque é forte, marca, é fácil de gravar.

Mas já houve vez em que tive que comprovar que Julianne Caju é Julianne de Oliveira Souza. Foi no ano de 2007, quando me inscrevi para participar de um concurso de textos jornalísticos sobre Educação Profissional. Como de costume, assinei a matéria Julianne Caju. Mas minha inscrição teve que ser com meu nome completo Julianne de Oliveira Souza, de acordo com meus documentos. Para comprovar que se
tratava da mesma pessoa, a diretora do jornal, onde o texto que escrevi para participar do concurso foi publicado, teve que fazer uma declaração comprovando que Julianne Caju é Julianne de Oliveira Souza. Aí, sim, minha inscrição e meu texto foram aceitos.

Como podem ver minha vida social e profissional está batizada com meu nome-apelido. Muitos de meus amigos nem sabem qual é o meu primeiro nome. Pois só me conhecem como Caju. Até tios, tias, primos, me chamam por Caju.

Eu sou conhecida no meio jornalístico como Julianne Caju. Todos, mas todos os meus trabalhos são registrados como Julianne Caju. Tanto é que basta colocar Julianne Caju no Google e comprovar a infinidade de páginas que aparecerá.

Julianne é Caju e Caju é Julianne Portanto sou Julianne Caju!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

Essa foi a carta que escrevi contando a história do meu apelido para que a advogada entrasse com a ação de retificação de registro civil.

Ela usou esses argumentos, mais documentos, como vários materiais em que foram publicados textos de   minha autoria em que assino Julianne Caju. Sendo assim, a advogada Claudia Saravy juntou um catatau de reportagens de TV (TV Pixé, TV SBT de Nova Mutum), de materiais de aúdio (Rádio Pixé – Rádio Cultura  de Cuiabá, Rádio Comunitária CPA), matérias do Jornal Correio Várzea-grandense (Caderno de Economia), textos publicados em sites, materiais produzidos para o antigo Ceprotec, hoje Escola Técnica Estadual de Mato Grosso, vinculado à Secitec, e outras publicações (livros, jornais, folders, etc) feitas por mim enquanto assessora de imprensa da Fundação MT.

Como eu já teria que acrescentar o nome do meu marido no meu nome, logo eu teria que mudar todos os meus documentos, resolvi aproveitar para tentar acrescentar o Caju no meu nome.

Em maio de 2011 veio a resposta:

“Em face ao exposto e em consonância com o parecer Ministerial, observando-se o disposto no artigo 109, parágrafo segundo e parágrafo quarto, da Lei 6.015/73, JULGO PROCEDENTE o pedido, e determino que se expeça mandado para que seja retificado o assento de nascimento, e, consequentemente, a certidão de casamento (fl. 20), devendo constar o nome da autora, no assento de nascimento, como sendo: “JULIANNE CAJU DE OLIVEIRA SOUZA”; e na certidão de casamento, como sendo: “JULIANNE CAJU DE OLIVEIRA SOUZA MORAES”.

Sendo assim ganhei mais dois nomes: CAJU e MORAES.

Assim como Xuxa, Pelé e Lula, agora sou eu Caju a ter apelido como nome oficial.  Rsrsrsr

OBS.: Por demora na liberação da sentença, somente agora em dezembro é que entrei com o pedido junto ao cartório para dar andamento na troca do meu nome em todos os meus documentos. É, os processos da Justiça são lentos, mas saem!!!

*Julianne Caju é jornalista em Rondonópolis

Fonte: Blog Pauta Quente

5 de dez. de 2011

Jornalista não é trabalhador. Ou pensa que não é

Por Leonardo Sakamoto

De tempos em tempos, nós – jornalistas – somos surpreendidos com notícias de demissões coletivas em veículos de comunicação. Atos que foram batizados carinhosamente de “passaralhos” (imaginem o porquê). Não vou discutir as razões que levam à dispensa de colegas de profissão – os motivos dos “ajustes” vão desde a justa necessidade de sobrevivência do próprio veículo (fazer bom jornalismo pode ser caro) à maximização de lucros da empresa. Então, para não ser leviano, precisam ser analisadas caso a caso. Vou me ater ao outro lado do balcão, ou seja, como reagimos a isso. Até porque, após a atual leva de demissões, não fiquei sabendo de nenhum ato de solidariedade aos demitidos. Talvez pelo medo de também perder o emprego, talvez pela sensação de impotência que resulta da lenta e contínua acomodação, talvez por algo maior que isso.

Trago aqui uma discussão já travada com os leitores. Nós, jornalistas, muitas vezes não nos reconhecemos como classe trabalhadora. Devido às peculiaridades da profissão, desenvolvemos laços com o poder e convivemos em seus espaços sociais e culturais, seduzidos por ele ou enganados por nós mesmos. Só percebemos que essa situação não é real e que também somos operários, transformando fato em notícia, quando nossos serviços não são mais necessários em determinado lugar.

Ou, às vezes, nem isso. Já vi colegas se culparem por terem sido demitidos sem justa causa no melhor estilo “perdoa-me por me traíres” de Nelson Rodrigues. “Deveria ter virado mais madrugadas na redação”, “deveria ter me oferecido para trabalhar em todos os finais de semana”, “não deveria ter corrigido o português ruim do meu chefe”…

Fazer protestos por melhores condições, que incluem uma certa estabilidade para reportar sem temer o que se escreve? Imagina! É coisa de caixa de banco, de operário sujo de graxa ou de condutor de trem que atrasam nossa vida e geram congestionamentos na cidade. Ou de inglês, francês e italiano que têm a vida ganha e mamam no Estado. Enquanto isso, quem tem consciência de que é um trabalhador e reivindica coletivamente, como muitos bancários, metalúrgicos e metroviários, tem mais chances de obter o que acha justo.

Quando vejo algumas coberturas jornalísticas mal feitas de protestos e greves fico pensando como pessoas que não conseguem se reconhecer como classe trabalhadora podem entender as reivindicações de trabalhadores. O fato é que não somos observadores externos e nem podemos ser. Somos parte desse tecido social, desempenhamos uma função, somos parte da engrenagem, gostemos ou não.

Muitos não se perguntam de onde vem o dissídio. Como uma criança que acha que o leite vem do mercado, pensamos que o reajuste vem do nada, sem ter sido fruto de muito diálogo entre capital e trabalho. Não é irônico que os profissionais que informam sobre e analisam a democracia diariamente não exerçam sua “cidadania profissional”?

A vida de jornalista, deixando de lado o falso glamour, não é fácil. Ainda mais para aqueles que são patrões de si mesmo, não por decisão própria (para empreender algo, por exemplo), mas porque foram empurrados para isso.
Sempre gostei do poema do dramaturgo alemão Bertolt Brecht que tratava da indiferença:

“Primeiro levaram os comunistas,/Mas eu não me importei/Porque não era nada comigo./Em seguida levaram alguns operários,/Mas a mim não me afetou/Porque eu não sou operário./Depois prenderam os sindicalistas,/Mas eu não me incomodei/Porque nunca fui sindicalista./Logo a seguir chegou a vez/De alguns padres,/ Mas como nunca fui religioso,/também não liguei./Agora levaram a mim/E quando percebi,/Já era tarde.”

Andaram pela mesma linha Maiakovski e Niemöller, escrevendo sobre o não fazer nada diante da injustiça para com o outro, até que, enfim, o observador passivo se torna a vítima. Hoje, não é comigo, então que se danem os outros. E quando chegar o amanhã e vierem bater à sua porta?

Ou, lembrando John Donne, poeta inglês, citado em “Por Quem os Sinos Dobram”, de Ernest Hemingway, ao defender que a morte de qualquer homem me diminui, pois sou parte da humanidade: nunca procure saber por quem os sinos dobram. Pois eles dobram por ti.

27 de nov. de 2011

ARTIGO: Orgulho de ser jornalista

Por Jonas da Silva*

A frase do título acima resume bem o estado de espírito e motivação dos jornalistas de Mato Grosso e de alguns da Folha do Estado em particular, em que pese dois meses do atraso de salários. Para os que me conhecem, sabem que não sou de escrever muitos artigos. Mas o momento é oportuno pela conjuntura com que esse movimento ganhou força. E as voltas da vida e seus desafios nos impõem reflexões e lições para serem levadas às gerações de hoje e do futuro. 

Algumas e alguns dos frágeis colegas na aparência daquela redação se mostraram firmes nas suas convicções e objetivos. Eles não foram forjados na luta de líderes sindicais tradicionais. Nem tão poucos batizados nas ideologias revolucionárias. Elas e eles chegaram aos poucos junto à luta sindical, da novidade da guerrilha virtual das redes sociais à presença física e falas com brilho nos olhos nas duas assembleias realizadas em frente ao jornal. Sabedores de serem sujeitos da história, donos de seus próprios destinos. 

Não se calaram, pediram uma intervenção direta do Sindicato dos Jornalistas de Mato Grosso (Sindjor-MT). Cansados de ver e sentir a repetição da praga que antes cabia à imagem do jornal Diário de Cuiabá, que atualmente tem quatro meses de salários atrasados, e que insiste nessa prática aos seus profissionais, mesmo que estes permaneçam no posto de trabalho. 

A histórica greve deflagrada por jornalistas das editorias de Cidades, Política e Esportes a partir de zero hora deste sábado de um dos maiores jornais diários de Cuiabá não é pouca coisa. É um grito para dizer aos patrões da mídia que não é possível mais ficar nesse faz de conta de que tudo vai bem na imprensa. Não vai, sabemos. Não vamos nem aqui enumerar o atrelamento covarde ao poder político e econômico. 

E por que não está tudo beleza? Porque há uma dupla punição aos cidadãos que todos os dias querem ser felizes com o que escolheram para viver dignamente: a profissão de jornalista. Primeiro porque eles trabalham de sol a sol, se expõem, correm riscos e não têm o merecido retorno pela venda da sua força de trabalho. 

E segundo porque como contribuintes recolhem impostos ao poder público e este retorna parte desse dinheiro ironicamente em anúncios para os donos do quarto poder acumularem riqueza e terem chácaras, vida mansa, patrimônio crescente. Um contraste com a vida de jornalistas com as contas a pagar que pipocam nos seus endereços, dificuldades até de ir e vir e não remuneração pelo que desempenham. 

A história nos mostra que homens e mulheres vencem pelas atitudes. E a postura de parte dos jornalistas da Folha do Estado com o movimento de greve os colocam no alto degrau da categoria. 

E como bem frisou a direção do Sindjor-MT em nota emitida na noite desta sexta-feira, “trabalhadores da imprensa mato-grossense e a direção do sindicato se sentem envergonhados por ter que realizar duas assembleias em uma semana para discutir o justo pagamento do salário em dia, um direito mínimo para sobrevivência de todo trabalhador”. 

Basta de salários atrasados. Jornalistas de outras redações, como do Diário de Cuiabá, já lembrado, uni-vos e vamos nos utilizar de nossas ‘armas eletrônicas’ para produzir maior clamor e sensibilização aos nossos patrões nesta segunda-feira (28) e tuitar o hastag #JornalistasnaForca.

E à parte dos valentes e heróicos jornalistas do jornal fica o estímulo e a certeza de que uma etapa da batalha foi obtida, mas ainda temos que construir a luta por dias melhores na profissão. Ela deve ser de modo organizado, sistemático e inteligente, continuamente no respeito de sermos porta-voz da comunidade. 

É por isso que a convocação é diária para dar um fim na ação inescrupulosa daqueles que roubam o suor, o talento e uma porção da alma dos que se dedicam a contar a crônica da cidade, um pedaço da história e todos os sentimentos de nossas vidas.

*Jonas da Silva é diretor do Sindjor-MT e jornalista com muito orgulho formado pela UFMT

9 de nov. de 2011

ARTIGO: Alguma coisa sobre correria e jornalismo

Keka Werneck*

Ter dois empregos é assim, dois patrões (ou mais), duas tensões. Dois prazeres também, caso seja possível realizar tarefas que alimentam a alma.

O dia começa bem cedo, às vezes junto com o sol, que ainda espreguiça, como a gente. Os olhos abrem, não querem abrir, querem se fechar em mais sonhos, para aproveitar a caminha gostosa, quentinha ou fresca, dependendo daquilo que o clima pede.

A rua já está iluminada pelos raios solares. Em se tratando de Cuiabá, o sol é bicho esperto, já acorda soprando a gente, esquentando o corpo,  que às vezes cansa, às vezes se enche de alegria de viver. Afinal, nada mais depressivo que o cinza eterno de cidades frias, sombrias, chuvosas. Cuiabá não é assim. Cuiabá é muito viva e alegre!

A manhã passa rápida, como um trem bala e a gente dentro dele, segurando nos corrimões, balançando o corpo para lá e para cá, na dança frenética da produção.

Fazer matéria hoje é assim, bem na lógica produtivista. Já foi o tempo que o repórter precisava ver e sentir, ver e ouvir, ver e até vivenciar, ver e contar, aos poucos, fazendo amizade com o leitor.

Aliás, o leitor não quer muito papo, é a lição número um da Folha de S.Paulo em seu manual de bolso e de freezer.

É isso! O jornalismo está congelado. Nem o sol de Cuiabá dá jeito.

Congelou, virou gelo. Jornalistas viraram as costas para o leitor e vice-versa. Ninguém quer papo. Só me diz o que está acontecendo e pronto, não me venha com conversa fiada. Vai direto ao lead e edita. Meu tempo é curto, o seu também, estamos quites.

O almoço é corrido. Engolir, porém, é diferente e degustar. Homens e mulheres da era pré-histórica tinham caninos ampliados. Precisavam rasgar carne. Não era um espetinho qualquer, eram lascas mesmo de bichos caçados. Agora são os fast-foods, dentes para que? Diz a ciência que, nesse ritmo alimentar, seremos banguelas em breve.

Na tarde de sol, Cuiabá castiga, heim. Sair para a reportagem é suar em bicas na certa. Às vezes a mente roda, a pressão baixa e a gente não entende bem o que o outro está falando, custa a cair a ficha, os fatos rodam no ar.

Dá um banzo...

O que tem status de pauta nem sempre faz o jornalista querer sair desse banzo, ir atrás, ser gato caçando o rato. O bicho jornalista não rasga carne, só busca o fast-food, a notícia fria e rápida e quase pronta. É isso que o capitalismo vai exigir dele, é isso que ele rende.

É um perigo acomodar-se nisso. Perigo físico e psíquico.

A noite em Cuiabá é tão boa... A lua quando vem surgindo por de trás da montanha é uma solidão, diria até uma emoção se você parar para admirá-la... Nessa hora o calor insistente lembra amor, sonho e renovação, descanso e meditação.

Deitada na cama, a jornalista pensa em pautas para amanhã... pensa em mudar o mundo, quanta pretensão! Em ser feliz no amor, para que as outras loucuras não a devorem nesse ritmo de produção, que corta o bate-papo, o cafezinho vagaroso, o olhar olho no olho durante alguns longos eternos minutos. São tantas coisas que a velocidade não alcança... o abanar de rabo de uma cachorrinha fiel, uma boa conversa com a filha, a vida besta apenas sem ter que dar lucro a ninguém, arroz com bife, arroz com ovo, couve com feijão, viciantes pequis roídos até o fim..

Almejar o passo da tartaruga... que lenta, lentamente, cumpre sua rota, insubornável.
Até que sejam possíveis outras formas de vida e de jornalismo.

* Keka Werneck é jornalista em Cuiabá e Diretora de Mobilização do Sindjor-MT

ARTIGO: Por que morreu o cinegrafista da Band?

Gilberto Maringoni*

A morte de Gelson Domingues, ao vivo e a cores, além de ser uma tragédia, bombou audiências na TV e na internet. O que leva um profissional a correr riscos desnecessários como este? Por que as coberturas são sempre pautadas pela ação da polícia? O que se quer mostrar com a espetacularização da violência?

O cinegrafista Gelson Domingo, de 46 anos, acompanhava uma operação do Bope na favela Antares, na zona oeste do Rio de Janeiro, no último domingo. Foi atingido por um tiro de fuzil, que atravessou seu peito. Ele usava um colete à prova de balas, permitido pelas Forças Armadas. Sua morte está sendo investigada pela Divisão de Homicídios da Polícia Civil do estado.

A apuração pode demorar tempo.

O repórter E rnani Alves, que o acompanhava, disse não querer descansar enquanto o autor do disparo não estiver preso.

Gelson deixa três filhos, dois netos e sua mulher. Deixa também seus dois empregos, na TV Bandeirantes e na TV Brasil.

Gelson morreu ao vivo – sem trocadilho – e em tempo real.

O vídeo do tiroteio com sua agonia bateu recordes de acessos na internet.

A Bandeirantes também deu farta cobertura a respeito.

Em meio à dor e a estupefação geral, cabe a pergunta: por que Gelson morreu?

É possível arriscar pelo menos três fatores, que não são excludentes.

São eles:

1. Gelson colocou-se na linha de tiro por ser um repórter ousado.

Sim, é verdade. Gelson demonstrou grande coragem e ousadia ao se colocar em um ângulo que o deixava vulnerável.

O Sindicato dos Jornalistas do Estado do Rio de Janeiro alega que o colete que o cinegrafista portava na ocasião não o protegia de tiros de fuzil.

É possível que tenham razão, mas mesmo que usasse uma proteção mais grossa, o tiro poderia atingir seu rosto.

O mais provável é que Gelson tenha sido pautado para fazer a cobertura.

O mais provável é que Gelson também tenha decidido fazer aquela cobertura.

Cinegrafistas não ganham bem. O caso de Gelson é ilustrativo.

Para se manter, ele se virava em dois expedientes, em duas empresas.

Reportagem é uma atividade extremamente tensa. Não existe reportagem tranquila. Se é tranquila, geralmente não é boa.

Há uma tensão constante pelo melhor ângulo, pela declaração exclusiva, pelo furo, pela audiência, pelo alcance. Há uma pressão das chefias para que se supere a concorrência a todo custo e de qualquer maneira.

Essa tensão toda acaba sendo introjetada pelos repórteres em um mercado de trabalho extremamente competitivo. É preciso fazer mais, apurar mais, trabalhar mais, captar um detalhe, um grito, um tiro...

Algo semelhante acontece em outras categorias, regidas por um produtivismo exacerbado em busca de maiores ganhos em relações de trabalho cada vez mais precárias.

Nesse ambiente, as metas a serem atingidas por um profissional são progressivamente mais elevadas, como as colocadas diante de profissionais de vendas, bancários, operadores de telecentros etc. O trabalhador é premido pela escolha de trabalhar mais e mais horas, obtendo alguns ganhos, ou estabilizar seu ritmo de atividade e ser ultrapassado por um colega, correndo o risco de ser descartado num ambiente de alta rotatividade.

O sociólogo Ricardo Antunes define essa situação no seu O continente do labor (Boitempo):

“Quer mediante programas de qualidade total e dos sistemas just-in-time e kanban, quer mediante a introdução de ganhos salariais vinculados à lucratividade e à produtividade (de que é exemplo o Programa de Participação nos Lucros e Resultados – PLR), sob uma pragmática que se adequava fortemente aos desígnios neoliberais (...). finalmente o mundo produtivo encontrou uma contextualidade propícia para o deslanche vigoroso de sua reestruturação, do assim chamado enxugamento empresarial e da implementação de mecanismos estruturados em moldes mais flexíveis”.

É possível que Gelson tenha estado onde estava por decisão própria. Mas uma decisão pautada por um impulso produtivista inatingível, de ser o melhor, de se colocar como mais qualificado num mercado estreito e quase irracional.

2. O que Gelson estava fazendo lá?

A grande maioria das coberturas policiais é feita por repórteres que acompanham as tropas policiais. São avisados e pautados pelas autoridades policiais. Um repórter não vai a uma zona de confronto por ter apurado previamente um possível embate entre policias e bandidos.

Jornalistas acompanham forças de segurança aqui assim como jornalistas estadunidenses acompanham as tropas de ocupação no Iraque, Afeganistão e Líbia. São os embedded, embutidos ou embarcados, numa tradução ao pé da letra. Vão para mostrar o que as forças armadas determinam. Não fazem a pauta sozinhos. De certa maneira, funcionam como assessores de imprensa.

No vídeo fatal, Gelson estava atrás de um policial do Bope. Quase filma pela alça de mira do soldado.

Duas vozes se misturam:

“Olha lá, é vagabundo! Olha lá, bota a cabeça inteira! É vagabundo! Ta encurralado! Ta armado! Caralho!”

As direções de redação combinam detalhes de operações com as cúpulas das polícias. O tom da cobertura é o tom das polícias.

Para aqueles que não gostam do termo, lá vai: é a cobertura mais ideologizada que existe. Não está se mostrando “a vida como ela é”. Está se mostrando um pedaço recortado da vida, como alguém quer mostrar. O pedaço em que quem está do outro lado é “vagabundo”.

A ação é realizada no meio de uma favela. Não no meio de um bairro da zona sul. Ninguém chama um morador da zona sul de “vagabundo” assim, sem mais.

“Vagabundo” é o pé de chinelo, o pobre, exibido como troféu, agarrado pelos cabelos ou pelo pescoço diante das câmeras. Um espetáculo!

Não se sabe se os exibidos nesse caso da favela Antares eram de fato traficantes. São jovens moradores pobres de um lugar pobre. Já são suspeitos. Um dos quatro moradores do local mortos na operação não tinha antecedentes criminais. Cabe tudo no genérico “vagabundo”.

A chefia de reportagem deve ter pauta do Gelson para ir até lá. A polícia deve ter pautado a redação.

3. Quem deixou Gelson ficar na linha de tiro?

Quem tem treinamento e conhecimento para situações de enfrentamento armado são as forças de segurança. Quem tem armamento para situações de enfrentamento é a polícia. No vídeo fica claro: Gelson se coloca atrás do policial que está atrás de um poste, mas à sua direita. Para captar a cena, teve de se expor.

Como as forças de segurança do Estado permitem que um leigo esteja no fronte de batalha sem essa mais aquela?

Gelson, mulher, três filhos, dois netos e dois empregos recebeu treinamento para isso?

Caso não, por que?

As coberturas das guerras de ocupação promovidas pelos Estados Unidos são feitas para nos dar a impressão de que tudo não passa de um grande videogame. Os jogos de guerra que existem no mercado são assim: profusão de tiros, sangue, explosões e muita cor. Mas é tudo inofensivo. O jogador do lado de cá da tela está protegido, com seu controle remoto, em sua poltrona na sala de sua casa ou numa lan house.

De vez em quando há um efeito 3D e tudo parece real.

No caso de Gelson, foi mais que isso.

Como no filme “A rosa púrpura do Cairo”, de Woody Allen, a cena sai da tela e vem para o mundo real.

O game over aconte ceu quando a bala saiu da tela e veio para o que se chama mundo real. Enquanto estava lá na favela, o tiroteio era apenas um videogame para entreter boa parte dos telespectadores.

Era só coisa de “vagabundo”, personagens do jogo.

(De conversas com Adelina França e Igor Fuser)

* Gilberto Maringoni, jornalista e cartunista, é doutor em História pela Universidade de São Paulo (USP) e autor de “A Venezuela que se inventa – poder, petróleo e intriga nos tempos de Chávez” (Editora Fundação Perseu Abramo).

21 de out. de 2011

ARTIGO: O que esperar quando só temos o caos?

Por Marcia Raquel*

Estou sem palavras... Chocada, transtornada. Logo eu, jornalista, sem palavras... A vida é mesmo irônica às vezes. Mas, mais que irônica, a vida está sendo desumana. Acabo de ver uma prévia do que o JN no Ar vai mostrar hoje no Jornal Nacional: o caos da saúde em Cuiabá e Várzea Grande e, consequentemente, em Mato Grosso. Difícil não se desesperar com a imagem de um pai, tentando consolar a filha, vítima de um acidente de trânsito, deitada em uma maca, com a cabeça toda enfaixada em cima de uma poça de sangue, pois o curativo não conseguiu estancar o sangramento. Até quando vamos deixar as pessoas morrerem sem atendimento, sem condições mínimas para atendimento de urgência e emergência? Ninguém mais se importa com vida? Ninguém mais se importa com o ser humano?

Aquilo mais parece um campo de guerra, com pessoas agonizando, deitadas no chão, a espera de alguém que tenha misericórdia e olhe por elas. Meu Deus tenha piedade de quem precisar de atendimento de urgência e emergência por essas bandas. Só me resta pedir a Deus, porque já está claro que quem teria condições de fazer alguma coisa não ouve nem vê nada. Estão todos dopados, sedados, desprovidos de qualquer sentimento de humanidade.

Meu Deus, como é possível gastar milhões com a Copa do Mundo quando não são capazes de dar o mínimo de decência para a saúde? Quem se importa com estádios gigantescos quando o menino que se machucou jogando uma pelada pode perder a perna por falta de atendimento? Quem se importa com VLT ou BRT se as pessoas estão morrendo por falta de atendimento de urgência e emergência?

Até quando vamos inverter as prioridades? Até quando vamos deixar as pessoas de lado? Até quando vamos ignorar quem dá o poder às autoridades? Estamos perdendo vidas, muitas vidas! Não somos descartáveis! 

Quanto é necessário para uma reforma decente no pronto socorro? Quanto é necessário para aumentar os leitos nos hospitais do Estado? Quanto é necessário para recuperar ou refazer o hospital regional? 

Quanto vai para o ralo com gastos públicos desnecessários? Quanto gastamos com publicidade de obras de fachadas? Quanto gastamos com funcionários fantasmas? Quanto vai para o bolso de políticos e administradores desonestos? Quanto dinheiro nosso é usado para benefício de poucos? Sim, a responsabilidade é nossa mesmo! Se não de gerir os gastos públicos, de cobrar eficiência, transparência, honestidade!

Esse balanço é urgente! É preciso acertar as contas e priorizar a vida! Estamos esperando o que? As pessoas morrerem para diminuir a demanda??? A demanda aumenta a cada dia, na mesma proporção que cresce a violência, que tem origem na falta de educação e de políticas sociais que garantam a distribuição de renda. Ou na mesma proporção que crescem os acidentes de trânsito, que por sua vez tem origem, na maioria das vezes, nas estradas e ruas em condições lastimáveis. 

Não sei onde vamos parar. Às vezes tenho medo até de pensar o que minha filha de dois anos vai enfrentar nessa vida.

*Marcia Raquel é jornalista em Cuiabá

20 de out. de 2011

ARTIGO: “Por gentileza”, paguem nossos salários!

Por Dafne Spolti*

Atrasar o pagamento das pessoas é uma das práticas mais sórdidas. Nada melhor que isso para manter o poder sobre outros indivíduos, até quando esses assim permitirem. Por outro lado, deixar de pagar também demonstra incompetência administrativa. Certamente os trabalhadores que estão sem receber substituirão aos poucos os sonhos de melhoria daquele produto ou serviço por irritação, preocupação, vontade de abandonar tudo. Se não houver mobilização para mudar o cenário e se a empresa ficar irredutível nas negociações a qualidade certamente irá cair, muitos profissionais irão abandonar o barco e, então, a empresa estará fadada à falência. São os trabalhadores que sustentam as empresas e seus proprietários.

Parece meio absurdo falarmos em atraso salarial. Com certeza poucos imaginam que exista isso. Pois acreditem: Há profissionais que há meses e até anos não recebem. Vivem de migalhas e de esperança. Nem se sentem no patamar de lutar por reajuste ou aumento salarial, auxílios, redução da jornada de trabalho, convênio médico. A busca é apenas pelo pagamento. Porém isso se configura muito mais numa torcida, reza, esperança e qualquer coisa dessas, do que em uma luta conjunta, como normalmente é o caso dos jornalistas. Sim! Os jornalistas muitas vezes estão informando a sociedade sobre manifestações de diversas categorias enquanto eles próprios não têm dinheiro para pegar um ônibus circular. 

Ontem o jornal onde trabalho há quase dois meses paralisou as atividades. Perceberam que hoje não tem Diário de Cuiabá nas bancas? Quem está lá há muito tempo não aguenta mais a embromação. Busca-se uma solução para tudo isso. Como viver sem saber se um dia receberá? Como pagar as contas, comida, e todas as despesas caras a que estamos necessariamente expostos? Como aguentar a pressão familiar? Queremos trabalhar no que gostamos. Mas também receber para isso.

Acabei de me formar, porém desde que entrei na faculdade, em 2007, ouço falar em atraso salarial, principalmente no Diário de Cuiabá e na Folha do Estado. Tive exemplo disso na Folha, no primeiro semestre, quando fiz um estágio. Demorei demais para receber meus R$ 350 na época.

Alguns esquemas de atraso salarial conseguem ser ainda mais infames do que a própria falta de pagamento. É o caso dos locais em que paga-se algumas pessoas enquanto outras ficam sem receber, como no Diário de Cuiabá. Isso é uma forma clara de desmobilização, injustiça e até maldade. 

Será que vamos ter que mudar de profissão? E como está nas outras categorias? É tanto pecado assim querer receber o próprio salário para poder comprar arroz, feijão, carne, salada, o leite das crianças, uma cerveja, um ingresso para o cinema? 

Importante reforçar que a Folha e o Diário são diferentes e têm formas distintas de atrasar o salário e lidar com os trabalhadores. Além disso, é claro, existem também outros veículos de comunicação que atrasam salários. Em relação ao Diário, algumas pessoas da equipe precisam receber cerca de quatro salários em atraso, além de pagamentos referentes a outros anos. Os funcionários garantem que é bem essa a situação, se não pior. Ah, quando digo equipe estou me referindo ao pessoal da gráfica, aos motoristas, ao administrativo, financeiro, repórteres, editores, diagramadores, revisores. Enfim, todos os profissionais que fazem o jornal sair.

Quando irão nos pagar Folha e Diário? Gente, se não forem pagar nunca, nos avisem. Assim buscaremos novos rumos. Mas que fique claro: Precisamos receber o que foi trabalhado. Vocês estão em dívida com seus funcionários. E nós, cientes disso.  

* DAFNE SPOLTI é jornalista em Cuiabá-MT

18 de out. de 2011

ARTIGO: Uma sociedade que cria monstros

Marta Helena Cocco*

São três horas da manhã e eu perdi o sono, apesar de o meu filho estar dormindo no quarto ao lado. Neste momento, aqui em Cuiabá, uma amiga e ex-colega de trabalho, Cleide Oliveira, provavelmente também esteja dormindo com o filho por perto, ele que conseguiu sobreviver a um espancamento bárbaro na cidade de Lucas do Rio Verde.

Neste momento, em Diamantino, uma ex-colega de faculdade não deve estar dormindo e, se estiver, é provável que seja sob efeito de medicamentos. O filho dela não resistiu a tiros desferidos na saída de uma boate e morreu.

Sobre o primeiro caso, eu soube depois de um mês do ocorrido. Minha amiga havia enviado e-mails aos conhecidos, mas eu apaguei sem ler, temendo ser vírus, por causa do título da mensagem. Ela deve ter pensado que eu, como boa parte da imprensa, consideramos o caso irrelevante, pois a violência está tão comum e banal que, noticiá-la, em meio a casos mais graves, não seria necessário. 

Heitor é estudante de Medicina e foi, a convite de um amigo do interior, para uma dessas feiras agropecuárias em que, em meio a negócios lucrativos, centenas de pessoas desfilam de botas e chapéus, copiando o modelo caubói dos EUA. 

Heitor é estudioso, concentrado (típico de um estudante que consegue aprovação em Medicina numa universidade federal) e não gosta de festas desse tipo, mas foi aconselhado pela mãe: vá se distrair um pouco, você estuda demais. 

Lá na feira, um jovem esbarrou nele que reagiu dizendo: "Presta atenção, cara!". Pronto, foi tudo o que o outro precisava para juntar sua gangue de filhinhos de papai e espancar o estudante violentamente. O motivo? Ninguém sabe.

Por que Heitor era de fora? Por que tem a pele morena? A polícia não deu ênfase ao caso, ninguém foi preso e a imprensa nem se abalou. O estudante, sangrando, foi até a rodoviária com um saco de gelo na cabeça,  certamente embasado em conhecimentos da Medicina. 

Chegou a Cuiabá e ligou para o pai que o levou ao hospital. Fratura no crânio. Muitos pontos e pinos na cabeça e uma imensa cicatriz. Eu vi o estudante, vi as radiografias e ouvi o relato da mãe que passou muitas noites sem dormir.

Luis Fernando, de Diamantino, eu conheci criança. Soube por meus sobrinhos, da idade dele, que Luis também era estudante da UFMT, de Educação Física, e que era um menino educado e "gente boa". 

Houve uma briga numa boate, que meus sobrinhos e outros filhos de amigos e conhecidos de Diamantino também frequentam.

Luis Fernando teria tentado apartar a briga, pois um dos envolvidos era amigo dele. Os seguranças do local expulsaram o jovem causador da confusão por causa de uma paquera, segundo infomações. Ele foi embora com o irmão que (em depoimento dado à polícia) não gostou da expulsão e foi buscar um revólver. 

Na saída da boate, o rapaz desferiu tiros que acertaram o amigo de Luis Fernando, Maiko, da cidade de Nobres (morreu imediatamente) e o próprio Luis, que foi levado ao hospital de Diamantino, depois transferido para Cuiabá e não resistiu (morreu um dia depois).

Esses dois casos são emblemáticos para mim, pois envolvem pessoas conhecidas. Mas há inúmeros casos semelhantes a esses todos os dias, em todos os lugares. Onde estão os culpados?

Os de Lucas do Rio Verde nem foram identificados, provavelmente por serem ricos. Os de Diamantino são pobres e estão na cadeia, que pode ser chamada de pós-graduação para bandidos. Serão julgados, provavelmente presos e, um dia, soltos.

Perdi o sono porque também sou mãe. E porque neste momento penso que também somos culpados e que precisamos avaliar não só a consequência, mas o que está gerando esse tipo de comportamento generalizado nos jovens. 

Por que somos também culpados? Por que aderimos, sem refletir, a um modelo de sociedade em que o valor supremo é o dinheiro e o consumo. Cada vez mais. Nossas escolas, por exemplo, estão fracassando porque um professor, tão desvalorizado, nem sempre consegue inspirar seus alunos a buscarem sucesso nos estudos e a produzirem um conhecimento em que o aspecto econômico da profissão seja apenas um, dentre outros. 

E porque, entre outras coisas graves, muitos dos políticos que elegemos (e que se candidatam porque têm dinheiro e são populares, com raras exceções) não estão interessados em mudar o rumo das coisas na educação.

Alguns poderão dizer: está faltando Deus. Sim, está faltando Deus, mas um Deus que inspire as pessoas a desenvolverem sua espiritualidade e a se conectar com o divino que não está lá no alto, mas dentro de cada um, inclusive dentro do próximo. 

Não um Deus pregado em igrejas e templos em que alguns padres e pastores estão, na aparência, reproduzindo um discurso baseado em dogmas e, no fundo, alimentando instituições milionárias cada vez mais poderosas e com uma influência política enorme. 

Outros poderão dizer: está faltando disciplina. Sim, mas não uma disciplina baseada no "eu mando e você obedece e ponto final". Uma disciplina baseada em argumentos de bom senso em que as regras estabelecidas sejam fruto do debate, da experiência dos mais vividos, da consciência sobre a real produção dessas regras e, principalmente, da finalidade delas. 

Há quem diga que com criança não funciona assim. Discordo. Crianças que aprendem a dialogar desde cedo, aprendem a argumentar e a exigir explicações plausíveis. Crianças educadas à base de surras e espancamento, provavelmente desenvolverão algum tipo de reação violenta diante de circunstâncias hostis, ou em momentos da chamada "cabeça quente".

Eu diria que o está faltando na vida das pessoas é a Arte e uma educação para a sensibilidade, para o cuidado com as coisas divinas como a natureza, inclusive a humana. Está faltando nas pessoas valorizar mais a felicidade, a justiça, a honra à palavra empenhada e menos o dinheiro e o status social. 

Os jovens são impulsivos e agem sem pensar. Uns agridem e matam porque a vida, para eles, não é nada. Matei, e daí? Outros, também jovens e impulsivos, mas incapazes de atos de violência contra o próximo, estão vulneráveis, correndo riscos e, provavelmente, sentindo-se inseguros diante do futuro.

Outro dia, a presidente Dilma apresentou um projeto para o barateamento do livro, na tentativa de melhorar a educação neste país. 

Sinto muito, presidente, mas o problema não está no preço do livro, embora seja muito bom que ele seja barateado. Está na cultura. Enquanto as pessoas considerarem mais importante comprar um par de botas e um chapéu para desfilar numa feira ou um celular da hora para impressionar, em vez de um livro para ampliar seu conhecimento; enquanto "ter" for mais importante do que "ser" num contexto em que as diferenças econômicas se acentuam, nenhum programa dará certo e a violência aumentará. 

O mundo está doente. Por isso perco o sono, mesmo sob a sensação de uma relativa segurança e mesmo com a certeza de que meu filho está dormindo no quarto ao lado.

Perco o sono, porque penso na dor das ex-colegas, penso na dor coletiva e penso que a doença é coletiva. Cleide viveu um inferno, mas o filho, hoje, passa bem e voltou a estudar. Lorena e Evandro, dentro de algumas horas, em Diamantino, terão de enterrar o filho primogênito.

Enquanto isso, daqui a pouco, o sol vai aparecer e será mais um dia e esta sociedade continuará a fabricar monstros que não valorizam a vida. 

Não sei o que dizer ao pai e à mãe do Luis Fernando, aos amigos, aos jovens, às autoridades, à imprensa. Mas sei o que eu jamais diria: "conformem-se, Deus quis assim".

Esse discurso talvez seja do diabo e as pessoas o reproduzam inocentemente, na tentativa de consolo. Mas para mim não serve. Não por causa da morte em si, pois é o destino de todos nós e talvez seja algo muito melhor do que possamos imaginar. 

Mas, por causa da vida, justamente essa que estamos vivendo.

*Marta Helena Cocco é escritora e professora de Literatura da Universidade Estadual de Mato Grosso (Unemat).