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18 de mar. de 2008

FLORES PARA ROSA LUXEMBURGO

Por Roberto Boaventura da Silva Sá

Poucas vezes a mídia enfatizou tanto a vida de alguém como fez com a de Fidel. Para muitos, um ditador cruel; para outros, um revolucionário. Aliás, os revolucionários andam em alta, ao menos na mídia. A maior rede de TV, para anunciar o canal Futura, nos lembra de Galileu, Robespierre, Joana d'Arc e Tiradentes. Claro que a lembrança não é de exaltação a nenhum ideal revolucionário; ao contrário, conforme o anúncio, vive-se, hoje, o exercício de liberdade plena que dispensa posturas sociais contundentes. Seja como for, incluo, nesse rol de humanos significativos, o nome de Rosa Luxemburgo. Se estivesse viva, faria aniversário num exato 05 de março.
Óbvio que não recordo de Rosa apenas pelo aniversário. Lembro-me, sobretudo, por conta das bolhas imobiliárias dos EUA; também pela estatização do banco inglês Northern Rock, especialista em créditos imobiliários. O 08 de março - Dia Internacional das Mulheres - também me faz lembrar Rosa. A comemoração da data nasceu sob a égide de ações revolucionárias de mulheres. Mas, afinal, o que as bolhas imobiliárias e um banco inglês têm a ver com Rosa? Direi. Antes, porém, é preciso contar quem foi essa mulher.
Rosa nasceu no sudeste da Polônia, em 1871, ano em que os franceses proclamaram a Comuna de Paris. Em 1897, adquiriu a cidadania alemã. Sua trajetória de vida sustentou-se na luta por uma sociedade justa e igualitária. Para isso foi exímia teórica, sem abandonar a organização concreta dos trabalhadores onde vivia. Opôs-se com veemência à Primeira Guerra Mundial; tanto que em 1915 foi presa por fazer propaganda contra a guerra. Durante a tragédia internacional, ficou detida a maior parte do tempo.
Ao sair da cadeia, sua liberdade não durou muito. Em 1919, durante uma greve de operários, ela foi novamente presa e executada com um tiro na cabeça. Detalhe: o social democrata Noske estivera à frente das tropas militares que combateram com milícias revolucionárias, das quais Rosa participava. Noske era um membro do grupo político de Rosa, o Partido Social-democrata Alemão (SPD). Isso foi num 15 de janeiro.
No campo acadêmico, ela combatia o cerne das teses de Bernstein, outro integrante do SPD. Para este, a revolução já não era necessária. Acreditava em reformas graduais do capitalismo, adaptando-se a ele. Uma das teses bernsteniana era o sistema de crédito. Para Rosa, isso não tinha a menor sustentação.
Com brilhantismo e pertinência, Rosa, sobre o crédito, disse o que segue: "...em vez de um meio de supressão ou atenuação das crises, o crédito, ao contrário, não é senão um meio particularmente poderoso de formação das crises. Aliás, não podia ser de outro modo. A função específica do crédito consiste, de fato - para falar de modo geral - em eliminar o resto de fixidez de todas as relações capitalistas, em introduzir por toda a parte a maior elasticidade possível, e em tornar todas as forças capitalistas extensíveis, relativas e sensíveis ao mais alto grau. É evidente que com isso ele só facilita e agrava as crises, que outra não são senão o choque periódico das forças contraditórias da economia capitalista (...). Em suma, o crédito reproduz todos os antagonismos fundamentais do mundo capitalista, acentua-os, precipita o desenvolvimento, fazendo correr o mundo capitalista para sua própria supressão, isto é, para o desmoronamento..." (In: Reforma ou Revolução. SP. Ed. Expressão Popular, 1999, p. 30-1).
Ficou claro, agora, por que me lembrei das "bolhas imobiliárias" e da estatização do banco Northern Rock, ao me recordar de Rosa? Porque, com sua leitura marxista, ela conseguiu antever o que estamos vivendo. No fragmento acima, faltou pouco a Luxemburgo usar ipsis litteris o termo da hora: "bolha imobiliária".
No mais, ela fez o papel do grande pensador revolucionário: apontou as contradições do sistema em que vivia. Ao fazer isso, chamou para si a ira dos agentes do capital, desnudados por uma mulher. Ao se perceberem nus, não lhe pouparam a vida. Por isso, hoje, é preciso oferecer flores a Rosa e aprender a pensar a sociedade atual com ela.


* Roberto Boaventura da Silva Sá
Dr. em Jornalismo/USP. Prof. da UFMT
rbventur26@yahoo.com.Br

Um comentário:

Anônimo disse...

Robertinho, que muitos fazem pre-julgamento de incendiário, é sacolejador seu artigo para os padrões de bajulação e excesso de zelo que encontramos na mídia atual e local.

A necessidade da apntar contradições neste mundo capitalista é dever moral de todos os dias dos profissionais de imprensa. Sob pena de vivermos um faz-de-conta que começa a tomar parte de tudo em nosso cotidiano.

A argumentação de Rosa Luxemburgo e sua tese sobre bolha imobiliária vem a calhar com uma atualidade que avança além de nossos dias. Parabéns !

E digo mais, créditos, como o financeiro que corre solto é uma cova aberta para cidadãos menos esclarecidos. É crime de arrogantes e mercenários, como o foi o sistema de crediário e o tal empréstimo consignado.

Estes dois sistemas são piores que tomar de assalto um cidadão. Pois, neste caso, é exposto fisicamente. Mas com tais créditos, o cidadão é virtualmente roubado da sua manifestação mais contundente da razão: o seu suor e trabalho...

Abraço e à adiante, sempre !
Jonas da Silva
Jornalista

Em tempo:
Precisamos de mais incendiários como vc, se assim o identificam, para o mundo não ficar esta água com açúcar, em que, apoiados no Consenso de Washington, alguns 'iluminados' e 'financistas' se achem no dever de comprar mentes e corações desiludidos e contraditoriamente solidários na selva urbana.